quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A CASA QUE REUNIU 162 DESTINOS


A casa que reuniu 162 destinos em 2002 - ZERO HORA 25/01/2012

Os 162 adolescentes que dão rosto a esta reportagem de Zero Hora tiveram suas vidas reunidas pelo menos uma vez, em 1º de janeiro de 2002, na Comunidade Socioeducativa (CSE). A unidade, encravada na Vila Cruzeiro do Sul, em Porto Alegre, ganhou esse novo nome em 2000, quando o então Instituto Juvenil Masculino (IJM) tentava se reerguer de uma trajetória de descontrole, motins e morte.

Até 1998, o IJM era uma casa comum, que funcionava para receber adolescentes não infratores e também como triagem, ou seja, casa por onde os infratores passavam antes de serem encaminhados à unidade onde cumpririam a medida de internação. Mas, naquele ano, mudanças em outras unidades interferiram no destino do IJM, que passou a receber infratores mais violentos, autores de atos infracionais graves. Começava ali uma história de tensão.

– Os colegas relatam que os guris chegaram (no então IJM) com canivetes e maconha escondidos por todo o corpo. Os guris tinham perfil extremamente grave. Era muito tenso – recorda uma ex-monitora.

Em setembro de 1999, os internos, amotinados, registraram o nome da casa em um dos capítulos mais violentos da história da então Fundação do Bem-estar do Menor (Febem): mataram o monitor Luís Fernando Silva Borges com um tiro.

Depois de uma sequência de motins que deixou a estrutura da casa fragilizada, o prédio foi sendo esvaziado para passar por reformas.

Em 2000, renovado, o IJM virou a Comunidade Socioeducativa. A casa rebatizada surgiu sob nova concepção de funcionamento, já que dispunha de cinco alas de internação isoladas uma da outra, além de quartos individuais, o que facilitaria o controle e o atendimento aos adolescentes.

Dois anos depois, em maio de 2002, a Febem foi transformada em Fase, mas as piores chagas ainda permeavam o cenário que reuniu esses 162 ex-internos: falta de estrutura adequada, escassez de pessoal, superlotação, agressões. Dez anos depois da mudança, a Febem ainda não sumiu por completo. Há agressões a internos, falta de pessoal, carência de atividades socioeducativas e excesso de medicação para “acalmar” adolescentes.

COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Os governantes gostam de criticar os antecessores, mudar o slogan, trocar o nome das instituições e pintar diferente o patrimônio público, mas não trocam os métodos. O problema é que o ECA e aplicado apenas nas suas benevolências, esquecendo as contrapartidas do governante e do infrator. E o governante não é cobrado pelos legisladores fiscais do Executivo; não é responsabilizado pela justiça (supervisão da execução penal; e não é pressionado pela sociedade organizada (no voto e em conselhos).

MENINOS CONDENADOS/RECUPERADOS

Natanael e Rafael, dois exemplos de esperança. Natanael é vendedor e evangelizador. Rafael, marceneiro. ADRIANA IRION E JOSÉ LUÍS COSTA - ZERO HORA, 25/01/2012

Seus nomes emergem de uma lista de 162 adolescentes que estavam internados na Fundação Estadual do Bem-estar do Menor (Febem) em 1º de janeiro de 2002.

As histórias dos dois poderiam ser contadas em uma palavra: esperança. Dos 114 ex-internos vivos, os dois, uma década depois daquela internação, são exemplos do esforço para driblar e mudar destinos marcados pelo crime na adolescência.

São oriundos de um grupo em que a maioria teve a trajetória reduzida a mortes violentas ou à perda da liberdade, condenada por crimes.

De volta à comunidade onde construíra laços com o crime na adolescência, a vila Bom Jesus, em Porto Alegre, Rafael Patricio Machado, 27 anos, resistiu.

Os amigos do passado o procuravam.

– Aqui fora tinha muitos amigos. Lá (na Febem), ninguém te procura ou manda algo. Só minha mãe me apoiou – recorda o marceneiro.

A constatação ajudou Rafael , que aos 16 anos passou Natal e Ano-Novo longe da família, recolhido à fundação por assalto, a optar por uma reviravolta. Hoje, casado e pai de Rafaela, reflete sobre o que o levou a roubar.:

– Faltava dinheiro para sair, comprar roupa. Tu vais conhecendo pessoas, o dinheiro vem fácil. Agora, vivo do serviço para casa e para cuidar da família.

A região em que ele mora ganhou destaque nacional em 2009, quando o então presidente Lula a visitou para anunciar a instalação do primeiro Território da Paz do Estado. Na Bom Jesus, uma das vilas mais violentas da Capital, o projeto anunciado não se concretizou, mas é aposta do governo federal para a recuperação de jovens e a prevenção de violência no Brasil.

– A existência de Territórios da Paz e de Unidades de Polícia Pacificadora será muito importante para a recuperação desses adolescentes. Existe mais esperança para eles em territórios pacificados – avalia a gaúcha Maria do Rosário, ministra da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.


A redenção de Natanael

Quem lê a ficha policial de Luiz Natanael Silva Machado quando era adolescente, arrisca uma sentença: está preso ou morto. Começou a furtar aos 10 anos. Aos 11, usou maconha e passou a dormir fora de casa. Largou a escola.

Dos 12 aos 13 anos, conheceu drogas pesadas e cometeu crimes graves: assaltava e agredia. Incontrolável, praticava delitos quase que diariamente em Montenegro, onde vivia com a mãe e o padrasto.

Era temido no comércio e em bairros residenciais. Frequentador assíduo do Conselho Tutelar, da delegacia, do fórum. Aos 14, matou um comerciante em uma tentativa de roubo. Era o ápice de uma carreira criminosa que reuniu, em quatro anos, mais de duas dezenas de ocorrências e até fuga de delegacia. Natanael foi mandado duas vezes para a Febem.

Ao sair, trapaceou o destino e, desta vez, jogando limpo. Contrariou a lógica, surpreendeu e ajudou a inserir esperança nesta série de matérias sobre a trajetória de 162 ex-internos da fundação. Está casado, tem um filho, trabalha e usa o currículo de crimes para falar a jovens sobre amor, drogas e futuro como evangelizador da Igreja Pentecostal Unida do Brasil.

– Ex-drogado, ex-ladrão, ex-interno da Febem, estou aqui para contar o que Deus fez na minha vida – anuncia a fiéis.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

OS MENINOS DO CRIME


EDITORIAL ZERO HORA 24/01/2012

O trabalho de reportagem que está sendo apresentado por Zero Hora sobre a trajetória de adolescentes internos na antiga Febem, no ano de 2002, é um atestado eloquente do fracasso de um modelo de recuperação de infratores que, infelizmente, ainda não foi totalmente extinto. Ao colocar nomes e biografias na estatística, o registro jornalístico evidencia dramas familiares e vidas desperdiçadas por uma nefasta conjugação de fatores que vão do ambiente degradado onde muitos desses jovens se criaram à incompetência do Estado para fazer o seu papel. Mas ainda são os números que chocam mais: de 162 jovens que cumpriam medida judicial no início do ano referido, apenas dois parecem ter se salvado da rotina de novas condenações, prisões e execuções. Os dados apontam para uma condenação coletiva. A Febem transformou-se em Fase em 2002, a metodologia de ressocialização de meninos e meninas infratores mudou bastante, mas ainda persistem alguns resquícios do autoritarismo e do descaso que transformaram tantos delinquentes juvenis em criminosos irrecuperáveis.

Se já é doloroso constatar que tantos egressos de um único ano tiveram destino tão trágico, mais assustador ainda é pensar que durante mais de 50 anos adolescentes autores de atos infracionais ou simplesmente abandonados receberam um atendimento que mais forma para o crime do que recupera. A partir da criação do Estatuto da Criança e do Adolescente, em 1990, as instituições de atendimento de todo o país tiveram que se adequar às diretrizes da Doutrina de Proteção Integral – que inclui distinção entre o tratamento a ser dispensado a autores de infrações e às vítimas de violência e abandono. A Fase especializou-se no atendimento aos jovens penalizados com medida judicial de internação ou semiliberdade.

Mudou muito, mas não mudou tudo. A própria ministra da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Maria do Rosário, admite que o sistema de caráter socioeducativo brasileiro ainda é apenas uma declaração de intenções, pois não consegue recuperar os infratores na dimensão desejada.

Não consola saber que era muito pior. A série de reportagens que está sendo apresentada por Zero Hora, com o objetivo de chamar a atenção das autoridades e da sociedade para o verdadeiro extermínio de vidas e futuros praticado durante tanto tempo com a conivência de todos, mostra um caminho sem volta. A reincidência no crime, o estigma da internação e a falta de oportunidades levaram a maioria absoluta do grupo investigado a condenações prolongadas, à clandestinidade ou mesmo à morte – destino de 48 deles, jovens que sequer tiveram a chance de se tornar adultos.

Mas este passado deprimente também pode ser utilizado como exemplo para o aperfeiçoa-mento do sistema e das instituições que hoje atendem crianças e adolescentes autores de atos infracionais. E deve servir, principalmente, para alertar os governantes e a sociedade sobre a urgência de investimentos em prevenção – a única porta capaz de impedir o acesso ao verdadeiro labirinto da ressocialização.


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Na minha opinião, os jovens infratores deveriam ser internados em centros públicos de ressocialização distribuídos por todo o Estado capacitados para educar, tratar a saúde (dependência química, déficit e desvios psíquicos), descobrir talentos e ensinar uma profissão conveniada com o mercado de trabalho local. Aqueles que mostrarem periculosidade alta devem ser tratados em outro nível. Hoje, os jovens infratores são "depositados" em grandes grupos sem distinção em locais onde o monitoramento é falho, o tratamento da saúde é debilitada e as condições são precárias.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

MIL E QUINHENTOS ANOS DE CADEIA



ADRIANA IRION E JOSÉ LUÍS COSTA, ZERO HORA 23/01/2012

Ultrapassa os 1,5 mil anos de condenações o saldo da trajetória criminosa de ex-internos da então Fundação Estadual do Bem-estar do Menor (Febem), hoje Fase, cujas histórias Zero Hora está contando.

Dez anos depois de se reunirem na Comunidade Socioeducativa (CSE), uma das unidades mais violentas da fundação, dos 162 jovens, 114 tiveram condenações judiciais.

- As sentenças são resultado de pelo menos 280 processos criminais.

- Dos 162 ex-internos, 135 passaram pelo sistema prisional.

- Eles tiveram pelo menos 340 entradas em prisões por suspeita de cometer crimes.

Há casos de jovens que ingressaram em cadeias para adultos antes mesmo de quitarem contas na fundação. Dos 162 ex-internos da CSE, 111 tiveram registros de fugas, sendo que 40 deles deixaram a instituição foragidos, portanto, sem terminar de cumprir a medida judicial de internação.

Luciano Emerson Pinto de Freitas é um exemplo. Fugiu da fundação, onde ingressara aos 17 anos, em 28 de abril de 2002. Às 10h do mesmo dia, foi preso ao assaltar um minimercado e atirar contra policiais militares.

Naquela manhã, Luciano dava sequência a uma carreira criminosa marcada por entradas e saídas de prisões e que lhe rendeu, até o momento, sentenças que ultrapassam 90 anos de condenação.

Jorge Luiz Pires saiu da então Febem em 8 de janeiro de 2002. Um dia depois, segundo a Justiça registrou em sentença, executou um homem com três tiros, em Porto Alegre. Voltou a ser preso 67 dias depois de ter saído da fundação. Hoje, tem penas que somam mais de 60 anos.

Dados sobre novas capturas mostram que parte dos ex-internos teve pouco tempo de liberdade. Pelo menos 60, dos 135 que foram presos , ingressaram em prisões menos de um ano depois de saírem da fundação. Para alguns, como Rafael Candido Santos Machado, isso representa uma vida inteira privada de liberdade.

Rafael entrou na ex-Febem com 14 anos, em 1999, por assalto. Entre ingressos, fugas, retornos, internações e o desligamento definitivo, passou cinco anos vinculado à fundação. E nesse período já registrava entradas também no sistema prisional. Hoje, tem pena de 49 anos. Mas da lista de 114 condenados também emergem histórias de jovens que cumpriram suas penas como adultos, ganharam liberdade e não voltaram a delinquir, como a de Magno da Silva Luciano, que formou família e trabalha em um posto de combustíveis.


70% dos 162 ex-internos foram condenados

O retrato feito por ZH revela que a reincidência fora dos portões do que é hoje a Fundação de Atendimento Socioeducativo (Fase) foi de 70,3%, levando em conta a quantidade de 114 ex-internos que foram condenados.

O percentual é bem superior ao verificado em 2011 na instituição. No ano passado, o índice de infratores que já haviam tido internações anteriores foi de 38,5%.

A ministra da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, a gaúcha Maria do Rosário, confirma que há dificuldades na ressocialização de infratores.

– Houve esforços nestes 10 anos, mas o sistema de caráter socioeducativo não tem funcionado no Brasil. Ele ainda é uma declaração de intenções mais do que uma realidade capaz de recuperar adolescentes – disse.

A situação desafia o poder público:

– É uma responsabilidade que não tem sido cumprida a contento no cenário nacional.

Os jovens cujas histórias embasam esta série de reportagens já tinham um perfil de repetição de delitos quando ainda eram adolescentes. Dos 162 infratores, 127 deles tiveram mais de uma internação na fundação.

domingo, 22 de janeiro de 2012

MENINOS CONDENADOS: 10 ANOS DEPOIS



ADRIANA IRION E JOSÉ LUÍS COSTA - REPORTAGEM ESPECIAL DE ZERO HORA DOMINICAL, 22/01/2012

Esta é a história de 162 vidas que se cruzaram em Porto Alegre, há 10 anos, em uma das mais conturbadas casas da então Fundação Estadual do Bem-estar do Menor (Febem), hoje Fase. Nesta reportagem, ZH revela o destino desse grupo de adolescentes cujos delitos os reuniram em 1º de janeiro de 2002 na Comunidade Socioeducativa (CSE).

A casa é considerada a de perfil mais complexo da Fase, pois reúne principalmente os adolescentes autores dos atos infracionais mais graves e que são mais velhos _ de 18 a 21 anos.

O destino dos 162 adolescentes, uma década depois daquela internação, poderia ser contado só em números. Eles falam por si:

135 foram presos sob suspeita de terem cometido crimes;

114 foram condenados;

55 estão presos;

48 morreram.

A maioria dos mortos foi executada a tiros antes de completar 25 anos, vítimas de vinganças ou de cobranças ligadas ao tráfico. Deixaram como herança para famílias cercadas pela violência pelo menos 17 filhos órfãos de pai. As histórias de esperança são escassas. Dos 114 ex-internos vivos, apenas dois não voltaram a ter seus nomes registrados em ocorrências policiais ou em processos criminais.

Mais do que estatísticas, o levantamento de ZH expõe rostos e trajetórias de jovens que, em muitos casos, foram vítimas antes de se tornarem infratores. Nascidos em berços pobres, forjaram a personalidade, os valores e os limites – ou a falta deles – em ambientes insalubres, lares marcados por brigas domésticas e separações conjugais, ausência de figura paterna, desemprego e abuso de álcool e de drogas. Foi o terreno fértil para cultivar a revolta, afastá-los dos cadernos escolares e torná-los presas da criminalidade.

Um cenário cujo caminho natural foi a internação na Febem, instituição que fracassou em sua meta de ressocialização para mais de uma centena deles.

A Febem virou Fase em maio de 2002 com nova proposta de tratamento a adolescentes infratores. Mas não sumiu por completo. Ainda habitam suas unidades práticas da antiga cultura de atendimento a internos, como o excesso de medicação para acalmá-los e agressões.

O retrato feito nesta reportagem mostra que, para este grupo de jovens, a fundação não conseguiu intervir em uma realidade na qual família e escola já haviam falhado. Dos 162 adolescentes, 127 tiveram mais de uma internação ou passagens tumultuadas por agressões a outros internos ou a monitores.

– Durante anos, enquanto fui monitora, me arrependi de ter entrado (na fundação). Diante dos nossos olhos tem um celofane, e tu enxergas o mundo colorido. A Fase te arranca isso. Fica tudo preto e branco – interpreta Débora Perin, hoje coordenadora jurídica da Fase.

Pelo menos 114 daqueles 162 adolescentes voltaram às ruas formados no crime. Antes com rostos e nomes protegidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) – que proíbe a identificação de menores de 18 anos que cometam atos infracionais –, ganharam destaque no noticiário policial. Inscreveram em seus currículos crimes de repercussão. Mataram policiais e crianças, integraram quadrilhas, roubaram carros e assaltaram bancos.

O que, então, em meio a tantas tragédias de responsabilidades coletivas, resgatou poucos deles do abismo da delinquência? O amor dirigido a uma mulher, a um familiar ou a Deus está presente nas histórias de superação que ZH descobriu nesse périplo em busca de ex-internos da CSE.. Quem teve chance de estudo e de trabalho também pode emergir do mergulho na criminalidade.

Um drible nada fácil para meninos que conheceram a violência cedo, como vítimas e como algozes.

A morte alcançou 48 jovens

Amorte de um em cada quatro “combatentes” é o saldo da batalha pela sobrevivência nas ruas do Rio Grande do Sul de 162 adolescentes depois de passarem, em 2002, pela Comunidade Socioeducativa (CSE). Em um conflito bélico entre nações, os números já seriam dignos de um massacre.

Dos 48 mortos, 41 ( 25,3%) tiveram morte violenta. No Brasil, em 2010, entre a população jovem (15 a 24 anos), o percentual de morte violenta foi de 0,08%, segundo dados do IBGE.

A arma mais letal na guerra enfrentada pelos ex-internos foi o crack. A pedra foi o fio condutor para soterrar pelo menos 27 dos 48 mortos, arrastando para a mesma vala jovens que tentavam se regenerar com outros entregues ao crime, condenados a matar, roubar e furtar pelo resto de seus dias para sustentar o vício.

A maioria partiu cedo. Para 43 deles, a sentença de morte veio antes dos 25 anos. Uma pequena parte tombou em confrontos com a polícia ou durante ação criminosa, mas o maior número foi executado a tiros pelas mãos de desafetos, por causa de brigas, dívidas, delações, vinganças ou queimas de arquivo.

A reconstituição das vidas desses jovens revela a gênese da violência. As vítimas nasceram e morreram em ambiente hostil. Mais de 70% delas vieram ao mundo sob o estigma da adversidade. Fruto de relações conjugais conturbadas, só conheceram a mãe ou padeceram com as separações dos pais. E uma parcela significativa carrega um histórico de tragédias familiares. Cresceu chorando a perda de parentes próximos, também fulminados por mortes violentas.

Às famílias restou o pesado fardo da saudade, do sofrimento, de criar quase duas dezenas de órfãos e se resignar com a indiferença das autoridades. Dos assassinatos que exigiam investigação, em menos da metade os responsáveis foram identificados e presos.

Duas das mortes ilustram o quadro de desventura: Marcos Arruda, enterrado como indigente aos 20 anos, em 2004, sem que parentes jamais vissem o corpo. E Gilmar Machado de Souza Junior, 21 anos, que, segundo recado anônimo dado à mãe, foi esquartejado e jogado em um lixão. A família nunca fez registro na polícia.




sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

MENOS CRIANÇA NA RUA

EDITORIAL ZERO HORA 20/01/2012


É visível e muito significativa a redução do contingente de crianças em situa-ção de risco nas ruas da Capital. E não se trata apenas da estatística oficial, que muitas vezes costuma ser mascarada pela autoridade de plantão, interessada em mostrar resultados. O fato pode ser constatado pela população, como atestou esta semana a reportagem deste jornal, percorrendo os mesmos trajetos feitos cinco anos atrás. Na ocasião, em 2006, os repórteres encontraram 14 crianças pedindo dinheiro nas sinaleiras de três artérias movimentadas. Agora, apenas três meninos foram vistos.

Certamente ainda não há o que festejar, pois o próprio órgão municipal encarregado de administrar o problema – a Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc) – reconhece a existência de 90 crianças nas ruas de Porto Alegre. Mas o resultado do trabalho da própria entidade, conjugado com outros fatores conjunturais, é notável e merece o reconhecimento da sociedade. Se as aparências não enganam, muitos meninos e meninas foram resgatados para uma vida mais digna e produtiva.

A guerra contra o desamparo da infância está sendo vencida pelos programas sociais que garantem renda mínima a famílias carentes e também pela maior oferta de emprego, que ajuda a evitar que adultos recorram à mendicância infantil para aumentar a renda familiar. Porém, tem sido importante a conscientização da população, ao substituir esmolas e doações diretas por contribuições a entidades assistenciais. Neste contexto, é fundamental a participação dos profissionais especializados que fazem o trabalho de abordar crianças em situação de rua, com o propósito de convencê-las a buscar alternativas de aprendizado e lazer disponibilizadas pelo Estado.

A retirada das crianças das ruas, porém, é apenas um primeiro passo na busca da cidadania plena. A caminhada só estará completa quando elas receberem oportunidades efetivas para estudar e para se tornarem cidadãos íntegros e felizes.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

FUNASA - MOTIM, TIROS E MORTES. UMA POR DECAPITAMENTO


Presidente da Funase divulga números oficiais da rebelião no Cabo. Uma ala da unidade foi totalmente destruída, e duas, parcialmente. 11/01/2012 17:18 - GERALDO LÉLIS, do FolhaPE, com PRISCILLA AGUIAR, de Grande Recife

Em entrevista coletiva um dia após a rebelião que deixou várias alas destruídas na Funase do Cabo de Santo Agostinho. O presidente da instituição, Alberto Vinícius, confirmou as três mortes, sendo eles José Mário de Oliveira Filho, de 18 anos, Allan Fraga de Oliveira, 19, e Pedro Henrique de Oliveira, 18. Este último teve a cabeça decepada e o corpo pendurado.

DHPP – O presidente também informou que quatro internos foram encaminhados ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa para prestar esclarecimento.

FUGAS – Durante toda a confusão, houve três fugas, sendo que dois jovens foram recapturados.

CAPACIDADE – A unidade tem capacidade para acolher 166 menores infratores, mas a população na Funase do Cabo era até o momento da rebelião de 367 adolescentes. As 21 unidades do Estado abrigam atualmente 1.496 internos, quando a capacidade é de 852. Em 2011, esse numero chegou a 1.615.

ALAS DESTRUÍDAS – A Ala 01 foi considerada totalmente destruída, enquanto que as 2 e 4 estão parcialmente.

ATENDIMENTOS MÉDICOS – Ao todo, foram 16 internos que receberam atendimentos médicos, sendo que nove foram transferidos para hospitais e um segue internado.

TRANSFERÊNCIAS – Nove reeducandos foram redistribuídos para unidades do Recife, de Caruaru, Abreu e Lima e Petrolina.

Alberto acredita que a ausência do ex-diretor de segurança da unidade, o coronel Severino Leandro, tenha facilitado para que a rebelião acontecesse. O coronel foi afastado do cargo após ser indiciado por maus tratos. Severino estava na diretoria de segurança havia quatro anos. Alberto acredita que o coronel será inocentado.

Segundo Alberto, haverá apuração para saber se houve facilitação por parte de alguém de dentro da unidade. “Eventos dessa natureza geralmente contam com a conivência de algum ente q não é adolescente, e isso será apurado”, declarou.


"A rebelião de terça foi a mais cruel que já vi em seis anos". Revelação é de uma agente. Prédio está completamente destruído.
11/01/2012 21:46 - DANÚBIA JULIÃO, do Portal FolhaPE

Segundo uma agente socioeducativa, que preferiu não se identificar, em seis anos de serviços prestados, a rebelião dessa terça-feira (10) foi a mais cruel já vista por ela. “Eles agiram para chocar, percebe-se pelo fato de terem jogado a cabeça de um dos mortos para o lado de fora da unidade”.

A realidade agora é que a situação interna do prédio e dos internos é crítica, até a enfermaria ficou completamente destruída. Eles ficaram sem luz e muitos sem roupa, devido ao motim e aos incêndios. Também faltava água, que, segundo o Conselheiro Tutelar, Geraílson Ribeiro, estava sendo providenciada na tarde desta terça-feira.

A ala 1 e 2, onde teve início o motim da terça-feira são os mais comprometidos. Todos os internos da ala 1 foram transferidos para a 3; metade dos da ala 2, para a 4. Apenas o pavilhão 5 não se envolveu nos motins.

De acordo com agente socioeducativa, morte estava “anunciada”. Uma das vítimas sairia da unidade em fevereiro. 11/01/2012 21:45 - DANÚBIA JULIÃO, do Portal FolhaPE


Segundo uma agente socioeducativa, que não quis se identificar, uma das mortes dessa terça-feira (10) era esperada . “Eles foram até a ala 6, onde estava Alan Fraga de Oliveira, 19 anos, (um dos mortos na rebelião), na intenção de matá-lo. Eles disseram que fizeram isso porque ele queria ‘tirar o comando do comando’, referindo-se à liderança do reeducando conhecido como Playboy, que foi transferido da unidade há uma semana. Alan estava na ala 6, onde ficam apenas os ameaçados de morte ou que tenham tido algum comportamento errado.

"Naquele dia, haviam 6 reeducandos lá”, disse. Segundo a agente, Alan era um dos garotos que se via a possibilidade de recuperação. Ele foi o único da unidade que recebeu indulto de Natal. Alan seria liberado no mês de fevereiro. Ao saber da sua morte, a mãe do garoto saiu da unidade, desesperada, chorando muito e gritando, amparada pelo tio do garoto. Inconformada, ela dizia que tinham matado o seu filho. Alan foi carbonizado.

REBELIÃO. Motim controlado na Funase do Cabo. Tiros e confusão marcam início da manhã no prédio. 11/01/2012 09:30 - Com informações de DANÚBIA JULIÃO - do Portal FolhaPE - e WAGNER SANTOS - da editoria de Grande Recife

Internos passarão por contagem

O motim dos internos da Fundação de Atendimento Socioeducativo (Funase) do Cabo de Santo Agostinho, que começou no início da noite de ontem (10), já está controlado. Após o fim da rebelião, na madrugada desta quarta-feira (11), os internos fizeram outra confusão. Por volta das 9h, os familiares, que aguardavam na frente do prédio para entrar no período de visitas, escutaram tiros e explosões dentro do prédio, o que gerou uma confusão também do lado de fora da unidade. Segundo o representante da Funase, não houve nenhuma fuga ou homicídio.

Os reeducandos só se acalmaram com a chegada do ex-diretor da unidade, coronel Leandro. Durante a madrugada, os familiares fizeram virgília esperando alguma novidade sobre os seus parentes. Até o início da manhã, o resultado da rebelião eram três mortos, inclusive, um deles teve a cabeça decepada e jogada para fora do prédio. O saldo de feridos, segundo a Funase, é de seis internos.

Agora à tarde, os familiares se reuniram na frente da Funase para rezar e tentar se tranquilizar. Muitas das mães estavam emocionadas. Os internos vão almoçar e depois passar por um processo de contagem e identificação. Ainda de acordo com esse representante, a situação dentro do prédio é de destruição, até a enfermaria está acabada. Segundo familiares, os reeducandos não gostam da atual diretora, Maria Suzete Lúcio.

Pouco antes das 15h, foi autorizada pelo Conselho Tutelar a entrada de cinco mães e um pai na Funase, para que eles pudessem servir de testemunhas de como está a situação dentro da unidade para os demais familiares. A decisão gerou descontentamento entre os outros pais e mães, que exigem igual permissão. Eles reivindicam informações sobre como estão os adolescentes após toda a confusão e alegam que as pessoas escolhidas não serão capaz de passar a informação de cada interno para familiares respectivos.

Os seis familiares autorizados a entrar confirmaram que não há condições de andar pelas dependências da unidade, pois não há energia, o que dificulta a visibilidade dos internos. Segundo eles, os pavilhões 1, 2 e 4, junto com a administração, estão destruídos. Ainda segundo as cinco mães e o pai que entraram, os garotos afirmaram estar em situação tranquilizada e pediram que os familiares fiquem calmos, para garantir a calma deles lá dentro.

Tranquilizados e sabendo que não poderão ver o parente interno, alguns familiares já deixam a localidade para retornar no próximo dia de visita, que deverá ser confirmado para domingo, como já acontece rotineiramente. A energia da unidade já está sendo restabelecida. Os garotos, por sua vez, estão alimentados e aguardam a chegada de água para beber.

Rebelião – A rebelião dentro da Funase do Cabo de Santo Agostinho durou seis horas e meia. O saldo foi de três corpos carbonizados, sendo um deles decapitado. As vítimas foram José Mário de Oliveira Filho, de 18 anos, Alan Fraga de Oliveira, conhecido como Geléia, de 19 anos, e Pedro Henrique de Oliveira Lima, de 18 anos, que foi decapitado.

Mesmo após o término da rebelião, o clima foi tenso durante toda a madrugada. Centenas de pessoas, entre familiares e amigos, procuravam informações sobre parentes detidos. Até o momento, a polícia prendeu quatro homens suspeitos de liderarem o motim da Funase.

Os suspeitos são Renato Almeida Cruz, de 19 anos, Jonatas Gomes Cabral da Silva, de 19 anos, conhecido como Delesão, Jefferson Fernando da Silva, de 18 anos, conhecido como Chuck, Danilo Berlarmino dos Santos Filho, de 19 anos, vulgo Arroz. Ainda não existe provas que eles tenham envolvimento nos crimes, mas, segundo a polícia, os rapazes serão autuados por danos ao patrimônio.

FUNASE. Segundo dia de rebelião teve bombas e tiros, mas nenhum morto. Motim foi controlado ainda durante a tarde - 11/01/2012 21:40 - DANÚBIA JULIÃO, do Portal FolhaPE

Parentes reivindicavam volta do coronel e reclamavam do tratamento dado pela diretora

Depois de uma noite tensa e violenta, com três mortos, sendo um deles decapitado e os outros dois queimados, os internos da Fundação de Atendimento Socioeducativo (Funase), no Cabo, voltaram a se rebelar nesta quarta-feira (11), dia de visita, o que acabou agravando a situação. Desde a última terça-feira (10), muitos familiares ficaram de vigília, esperando a entrada na unidade, que aconteceria às 9h, e outros chegaram durante toda a manhã. Eram centenas de pessoas na frente da unidade. Todos entraram em desespero quando viram a entrada dos cerca de 40 homens do Batalhão de Choque da Polícia Militar, por volta das 10h. Era o sinal de mais um motim.

Eles só saíram da unidade por volta das 14h, depois de conter os ânimos dos internos. Antes, ouviam-se os constantes disparos de bombas de efeito moral e balas de borracha. Os reeducandos chegaram a jogar pedras para o lado de fora da instituição, outro conseguiu fugir, mas foi logo capturado e um segundo foi atingido com um tiro no pé quando tentava se evadir. Em mais um dia de rebelião, não foi registrado nenhum homicídio.

A rebelião desta quarta-feira (11) começou porque, com o motim da terça-feira (10), os internos das alas 1 e 2 tiveram que ser redistribuídos e ficaram misturados com os demais, disse um supervisor, integrante da diretoria, que preferiu não se identificar. “Além disso, vivemos uma situação delicada, temos poucos agentes. São, por turno, no máximo, 15. Quando, na verdade, o ideal seriam 25. Além disso, temos uma superlotação. Hoje são quase 400 internos em um espaço que dizem caber 166. Mas, na verdade, para que pudéssemos realizar trabalho de recuperação desses jovens, deveriam ter aqui, no máximo 120”, relatou.

Com a saída da diretora da unidade, Maria Suzete Lúcio, e a chegada do ex-diretor da unidade – retirado do cargo em novembro passado –, coronel Severino Leandro, os reeducandos se acalmaram. Seus parentes reivindicavam a volta do coronel e reclamavam do tratamento dado a eles pela atual diretora. O coronel Leandro permaneceu dentro da unidade durante toda à tarde, e, junto com Conselheiros Tutelares, fez vistorias nas celas para verificar a situação dos internos.

“Fomos verificar se a polícia abusou da força ou tratou mal os meninos. O que vimos foi que eles foram tratados da forma devida e que estão bem. Eles queriam comida e água, porque muitos estavam sem comer desde ontem, e atendemos”, garantiu o diretor da Associação Metropolitana dos Conselheiros Tutelares de Pernambuco, Geraílson Ribeiro. Durante a vistoria, foram encontradas armas artesanais e outros objetos usados com essa intenção, como barrotes. Peritos do Instituto de Criminalística (IC) também estiveram no local para estudar a área dos homicídios.

Movidos pela perseverança e persistência, familiares passaram o dia inteiro com a esperança de ao menos ver o seu parente. Mas, pouco antes das 15h, veio a notícia de que isso não seria possível devido às condições internas da unidade. Então foi montada uma comissão com cinco mães e um pai, para entrar e servir de testemunhas de como está a situação dentro da unidade para os demais familiares. Eles saíram perplexos.

“Não dá para ver ninguém. Os pavilhões 1, 2 e 4 e a administração estão destruídos. Está sem luz. O que vi foi muito sangue pelo chão, tudo queimado, destruído. Cadeiras de mesas quebradas. Grades quebradas. Está tudo horrível. É necessário que a mãe tenha muita força para entrar e ver uma situação dessa. Mas eles estão bem”, disse a doméstica Marilene Maria da Silva, de 38 anos de idade.

Mas, mesmo com o relato dos pais, a decisão gerou descontentamento entre os demais familiares que esperavam para ver seu parente. Eles exigiam igual permissão. Reivindicavam informações sobre como estão os adolescentes após toda a confusão e alegavam que as pessoas escolhidas não seriam capazes de passar a informação de cada interno para familiares respectivos.

No fim do dia, a situação parecia está contornada, mas segundo uma agente penitenciária que preferiu não se identificar, o clima era de hostilidade. “Eles perguntam pela visita. Quando respondemos que não terá, eles perguntam se temos certeza disso, tentando nos intimidar”, informou. A direção da unidade informou que as visitas devem ser apenas no domingo (15), como acontece rotineiramente.

Durante a operação na Funase, foi necessário o reforço no policiamento com soldados da CIPCães. Do lado de fora, tinham duas viaturas do Samu, um caminhão de combate a incêndio e uma ambulância do Corpo de Bombeiros.