sábado, 30 de junho de 2012

GURI MATADOR DA FASE




WANDERLEY SOARES, O SUL

Porto Alegre, Sábado, 30 de Junho de 2012.


Ele será uma ameaça contra servidores que não estão preparados para tal missão.

Um adolescente de 17 anos, conhecido como Playboy, foi preso ontem em Viamão, no local que pode ser um núcleo de tráfico no bairro Castelinho. Com ele estavam cinco mulheres, que também foram detidas. 



De acordo com policiais da 2 DP viamonense, este menino seria autor direto de 10 homicídios e pode estar envolvido em outras 20 mortes. 


Segundo as primeiras informações sobre a prisão de Playboy, ele estaria sendo encaminhado para uma das unidades da Fase (ex-Febem), em Porto Alegre. 


Estive falando com meus conselheiros e eles me revelaram que as casas prisionais gaúchas, para adultos, não têm estrutura confiável para manter preso um matador profissional, mesmo tendo profissionais de longa experiência no trato com tal tipo de delinquente. Assim é que a Fase muito menos estrutura tem para isso. 


Este guri, na Fase, será uma ameaça contra servidores que não estão preparados para tal missão, mesmo que, cotidianamente, sofram ameaças e agressões de meninos com biografia menos tenebrosa do que a de Playboy. Neste campo, este é o estágio do governo da transversalidade gaúcha nos diversos setores da segurança pública.


CARREIRA PRECOCE

ZERO HORA, 30 de junho de 2012 | N° 17116

Aos 17 anos, adolescente é suspeito de seis mortes. Ao lado da namorada, garoto foi detido ontem em uma casa em Viamão. EDUARDO TORRES 


Ao entrarem no quarto, os policiais foram surpreendidos. Deitado na cama ao lado de uma jovem de 19 anos, um adolescente de 17 anos já estava a postos, com uma pistola apontada para os agentes. Ele só recuou ao perceber que os policiais civis estavam em maior número e melhor armados.

Ao lado do rapaz, na casa na Vila Castelinho, em Viamão, a namorada não parecia assustada, mas admirada. E aí surpreendeu a todos com uma declaração de amor:

– Agora eu caso contigo.

Ser preso é o auge no “status” no mundo do crime que o adolescente parecia estar buscando desde que tinha 15 anos. Com antecedentes por furto, roubo de ônibus e porte ilegal de arma, na manhã de ontem ele teve freada uma assustadora estatística. Mesmo tão jovem, o adolescente é apontado pela polícia como um matador cruel, a mando dos Bala na Cara. Tem atribuídos contra si pelo menos seis homicídios e outras quatro tentativas, todos neste ano e em fase avançada de investigações.

Segundo a 2ª Delegacia de Polícia de Viamão, ele ainda estaria envolvido com outros 20 homicídios entre Viamão, Alvorada e na zona norte de Porto Alegre – as regiões onde os Bala na Cara exercem controle violento. Na maioria das vezes, os crimes foram encomendados por traficantes de dentro da Penitenciária Estadual do Jacuí (PEJ), em Charqueadas, e do Presídio Central.

– Estávamos impressionados com os depoimentos de tantos homicídios nessa região, com testemunhas invariavelmente apontando para o adolescente – avaliou o delegado Carlos Wendt.

Já na delegacia, o adolescente desafiou os policiais a provarem os crimes. Negou tudo. Na manhã de ontem, cerca de 30 policiais cumpriram mandados de busca e apreensão direcionados para pelo menos três casas. Uma delas era uma espécie de quartel-general da quadrilha e pertenceria a um traficante de 22 anos, preso na PEJ. Seria o abrigo para o matador.

Foram apreendidos uma pistola .380 e um revólver calibre 38, além de farta munição, incluindo calibre 9mm. Ainda foram encontrados 1,5kg de maconha, pedras de crack e algumas porções de cocaína.

Apenas em 2012

- Dois procedimentos concluídos: o incriminam por duas mortes
- Quatro suspeitas: seria o assassino
- Quatro tentativas: foi reconhecido por vítimas
- 20 possibilidades: homicídios ou tentativas que ex-parceiros atribuem a ele

quinta-feira, 28 de junho de 2012

OPERAÇÃO CONTRA PORNOGRAFIA INFANTIL PRENDE 32 EM NOVE ESTADOS

FOLHA.COM 28/06/2012 - 18h37

DE PORTO ALEGRE
DE FORTALEZA


Atualizado às 18h53.

A Polícia Federal prendeu 32 suspeitos de envolvimento em uma rede de pornografia infantil nesta quinta-feira. A operação foi realizada em 11 Estados e no Distrito Federal, mas os presos foram localizados em nove: RS, PR, SP, RJ, ES, CE, MG, BA e MA.

Só no Estado de São Paulo nove pessoas foram presas.

De acordo com investigações da PF, os suspeitos fazem parte de um grupo que compartilhava o material na internet e que tinha ligações com usuários da rede em outros 34 países. A Polícia Federal afirmou que já comunicou através da Interpol os países com integrantes envolvidos.

A investigação começou no Rio Grande do Sul no fim de 2011, após a prisão em Porto Alegre de um suspeito de envolvimento em trocas de pornografia infantil.

O Ministério Público Federal e a Polícia Federal então conseguiram na Justiça mandados para aprofundar a apuração sobre outras pessoas com quem ele tinham ligação.

Policiais federais monitoraram redes privada de compartilhamento de arquivos por seis meses e descobriram a troca de material pornográfico.

Os policiais afirmam que os suspeitos trocavam "milhares de arquivos" com cenas de adolescentes, crianças e até bebês em situações de abuso. O material aprendido passará por perícia para identificar tanto o autor das imagens como as vítimas.

Além da troca de arquivos, foram identificados relatos de outros crimes praticados contra crianças, como estupro cometido contra os próprios filhos, sequestros, assassinatos e atos de canibalismo. Esses casos ainda serão investigados, segundo a PF.

Os policiais dizem que há pelo menos um caso de imagens produzidas por um dos usuários.

RADIALISTA

O radialista Rodrigo Vieira Emerenciano, o Mução, foi preso na manhã de ontem em sua casa em Fortaleza suspeito de participação no esquema de pedofilia investigado pela Polícia Federal.

A PF não divulgou o nome dos suspeitos, mas o advogado de Mução, Waldir Xavier de Lima Filho, confirmou que ele foi preso temporariamente.

Segundo Lima Filho, o humorista não tem nenhuma relação com o esquema e foi alvo de um engano.

"Me parece que alguém conseguiu hackear ou acessar alguma coisa de informática dele e baixou programas na internet que são objeto da investigação", disse.

O advogado afirmou que vai entrar na sexta-feira com um pedido de soltura de Mução.

Segundo a superintendência da PF em Fortaleza, outras duas pessoas foram presas em flagrante na cidade. Também foram cumpridos quatro mandados de busca e apreensão.

Mução apresenta o programa "A Hora do Mução", transmitido em várias rádios do país e famoso por suas pegadinhas ao telefone. Ontem, foi ao ar uma reprise do programa.

domingo, 24 de junho de 2012

MAIORIDADE PENAL

CORREIO DO POVO, 24 DE JUNHO DE 2012


Crédito: joão luis xavier

Rogério Mendelski 

Muitas vezes, o nosso país se destaca no mundo civilizado, não pelo seu crescimento como nação emergente e com tudo para dar certo, mas pelo exotismo de determinados valores culturais, fundamentos básicos para uma sociedade moderna. Vejam bem: temos leis que protegem bandidos e projetos humanos de bandidos. Agora mesmo examina-se a possibilidade de traficantes condenados iniciarem o cumprimento de suas penas no regime semiaberto. Talvez porque já se projete também a descriminalização das drogas e aí, como se diz no submundo, "fecha todas". Mas o assunto desta coluna é a maioridade penal que no Brasil permite jovens delinquentes de 16 anos desfrutarem de uma deliciosa impunidade. Em São Paulo, um adolescente com essa idade comandou 12 arrastões em restaurantes e bares da capital paulista, de acordo com o reconhecimento das vítimas. Ah..., mas o garotão tem a proteção do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), cujo nome sequer pode ser citado. Além disso, os artigos 27 do Código Penal e 228 da Constituição federal completam a blindagem de atos criminosos de jovens que fizeram a opção pela bandidagem, exatamente por que conhecem de cor e salteado todos os expedientes legais que lhes dão a cobertura para a delinquência.

Volto a um tema antigo desta coluna: a bandidagem brasileira tem leis a seu favor e quando ela sai por aí a assaltar, a avaliação custo-benefício já foi devidamente estudada. Vale dizer que a Justiça pouco pode fazer quando qualquer advogado alega a quantidade de leis em favor do crime e de seus clientes. Essa pilantragem legal tem origem no poder Legislativo, o mesmo "santuário" da democracia que produz leis para um adolescente votar para presidente, mas também para encostar um "tresoitão" na nossa cabeça e sair por aí como um canário-belga que voou porque deixaram a gaiola aberta. No nosso universo de coisas exóticas, enquanto sobram ONGs, leis e estatutos em defesa dos criminosos, faltam entidades e voluntários que se lembrem das vítimas. Sequer temos um ministeriozinho que se lembre de nós...

Idade mínima

Qual o limite para a inimputabilidade? No Brasil, 18 anos. Mas em outros países, onde os estatutos para crianças e adolescentes não são tão generosos, a idade mínima para um menor ser punido varia de acordo com seus referenciais culturais. O exemplo mais radical está no Principado de Luxemburgo. Lá, não existe idade mínima.

A nossa verdade

A legislação brasileira não vê crime em ações fora da lei cometidas por menores de 18 anos. São apenas atos infracionais, assim como a definição da prisão de algum jovem delinquente. Ele jamais será "preso" e sim "apreendido". É o que diz o ECA.

Inglaterra

No país dos Beatles e da rainha Elizabeth II, a partir dos 10 anos qualquer pessoa pode ir a julgamento por crimes graves. Dois garotos, ambos com 11 anos, foram condenados a 15 anos de prisão por assassinato de um bebê de 2 anos, sequestrado, espancado e colocado amarrado numa linha férrea. Um trem terminou o "serviço" deles. No Brasil, qual seria a pena para os meninos assassinos? Talvez um estágio na Febem.

Mistura perigosa

Mudar o sentido das palavras não altera seus resultados práticos, mas é ideologicamente charmoso. Nas ditaduras comunistas não há oposição e, quando ela brota, seus seguidores são apenas "dissidentes". Assim como na Igreja Católica não existe crime, mas pecado. Para o Vaticano, padre pedófilo não é criminoso é apenas um pecador que merece perdão.

Novilíngua

O termo é uma criação de George Orwell para o seu notável livro "1984". Era a nova língua do sinistro regime imaginado por ele. Não foi diferente quando "Febem" quase virou sinônimo de delinquente juvenil. "Esse é um febem", registrava o preconceito. Aqui no Sul, a entidade foi rebatizada para Fase. Sempre é mais fácil mudar o sofá da sala do que trocar quem senta nele.

UMA PAUTA PERMANENTE


ZERO HORA, 24 de junho de 2012 | N° 17110

CARTA DO EDITOR | Nilson Vargas – Editor-chefe


Zero Hora “adotou” o Filho da Rua. Não a pessoa, mas a causa. Ao lançar, no domingo passado, no caderno “Filho da Rua” e em conteúdo especial multimídia, a discussão sobre meninos e meninas que perambulam e muitas vezes dormem e moram pelas calçadas, deu um sinal claro do compromisso de não abandonar este tema.

Nossas armas não são a caneta do gestor público, ou o dom de injetar nas pessoas o vírus da máxima generosidade. Nosso poder de fogo está em ser um veículo de comunicação engajado nas causas da sociedade, sensível aos dramas humanos e disposto a fomentar o debate com uma matéria-prima preciosa: o jornalismo. O conteúdo já produzido e veiculado, resultado de um trabalho de três anos da repórter Letícia Duarte e do fotógrafo Jefferson Botega, acompanhando os passos do menino Felipe, foi o primeiro – e grande – movimento. Foi dali que extraímos dos leitores um volume impressionante de manifestações por e-mail, nas redes sociais, em pesquisas de opinião e em outros fóruns. Manifestações que chamam atenção pela emoção e pela lucidez.

Como não se emocionar com o drama de um guri que vê a infância indo embora, consumida pela pobreza, a droga e a falta de perspectivas? E, ao mesmo tempo, como não associar este drama individual a um pacote de circunstâncias coletivas que inclui desestrutura familiar, paternidade irresponsável, avanço do crack, precariedade da rede de proteção, falhas nos macroprogramas sociais, entre outras. No papel e nos meios digitais, Zero Hora alcançou o objetivo de chamar atenção para o tema.

A semana mal havia começado e um Painel RBS reunia autoridades e especialistas para discutir o assunto, com respaldo de todos os veículos do Grupo RBS. Depois do impacto da reportagem, a meta já era mirar em soluções. Ao longo da semana, novas reportagens em ZH e zerohora.com deram início à missão de mergulhar nos fatores que empurram crianças para as ruas. Uma destas reportagens está nesta edição e mostra que há, sim, saídas. Mesmo com precariedades, a rede de proteção formada por órgãos públicos e entidades da sociedade civil exibe razoável taxa de sucesso no resgate dos pequenos.

A missão não vai terminar, assim como, infelizmente, não há no horizonte perspectiva de que a ferida das crianças e adolescentes de rua seja curada. O assunto entra na lista permanente de pautas de Zero Hora. Novas reportagens já estão no forno, como a que vai debater o papel decisivo das famílias e outra que tratará de paternidade responsável. Outras abordagens virão, certamente. Afinal, um filho é para sempre.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

EX-INTERNOS ZOMBAM DO SISTEMA

Ex-internos do Caje zombam do sistema em redes sociais. "É só lazer", dizem

Saulo Araújo

CORREIO BRAZILIENSE, 21/06/2012 06:18




Jovens usam o espaço da comunidade "Já puxei no Caje" para descrever supostos crimes cometidos dentro da instituição: "regalia" e "televisão".

Uma comunidade hospedada no site de relacionamentos Orkut expõe os bastidores do Centro de Atendimento Juvenil Especializado (Caje). Oitenta e quatro jovens que garantem ter passado pela unidade usam o espaço virtual “Já puxei no Caje” para compartilhar experiências, além de zombar do sistema. Quase todos debocham do período em que estiveram internados. Relatam supostas fugas, desafiam servidores e confirmam o discurso dos militantes dos direitos das crianças e dos adolescentes: o Caje não é capaz de recuperar um infrator.

Um dos tópicos, intitulado “Caje, só regalia”, revela depoimentos de meninos e meninas sobre episódios que ocorreram na instituição. Um deles conta ter violentado sexualmente um colega de 12 anos durante o banho. Outro narra que fumou maconha nas dependências do complexo. “Puxei (ficou internado) na turma da fraternidade. Filmezin todo dia a tarde, um cigarrin. Salve salve mais um menor infrator (sic)”, escreveu.

terça-feira, 19 de junho de 2012

UM DRAMA SOCIAL EM OITO ATOS




FILHO DA RUA. Um drama social em oito atos - ZERO HORA 19/06/2012

A discussão sobre o problema dos meninos de rua mobilizou ontem especialistas em um estúdio da RBS TV, em Porto Alegre, e milhares de interessados por todo o Estado. Enquanto o pequeno grupo de autoridades e profissionais da área participava de um Painel RBS especial, a sociedade se manifestava por meio de centenas de e-mails e comentários no site do jornal sobre a reportagem Filho da Rua, publicada por Zero Hora no domingo.

Nestas páginas, ZH promove o encontro dessas duas visões, reunidas sob oito tópicos, eleitos a partir de um programa de computador ao qual foram submetidas as mensagens de leitores. O software contabilizou os termos mais utilizados. A contagem ajuda a enxergar as maiores preocupações da sociedade em relação ao drama dos meninos que vagam por esquinas.

O Painel RBS realizado na manhã de ontem e as manifestações de leitores são consequência de um trabalho jornalístico que se estendeu por três anos. Durante esse período, a repórter Letícia Duarte e o fotógrafo Jefferson Botega investigaram e documentaram a trajetória de Felipe*, um adolescente de 14 anos que há quase uma década vive pelas ruas da Capital, consumindo drogas, sofrendo violências e praticando furtos. O resultado da apuração foi publicado em um caderno de 16 páginas.

Confira os oito dos temas mais citados, as manifestações de leitores e as análises feitas pelos convidados do Painel RBS.

*Nome fictício para preservar a identidade do menino, conforme determina o Estatuto da Criança e do Adolescente

I - Família

A família do garoto Felipe, personagem da matéria de ZH, ajuda a explicar por que ele se tornou um menino de rua. O pai, alcoólatra e violento, foi embora. A mãe decidiu não usar contraceptivos e teve seis filhos. Nunca soube como colocar limites nos meninos.

Segundo os participantes do painel, é necessário dar apoio a lares desestruturados como esse.

– O primeiro passo é fortalecer a família, criando condições socioeconômicas melhores. A rua atrai porque oferece mais do que se tem em casa – observou o psicólogo Lucas Neiva-Silva.

A questão é apoiar, e não punir a família, defendeu Marcelo Dornelles, subprocurador-geral de Justiça para Assuntos Institucionais do Ministério Público, que enfatizou:

– A situação de desestruturação da família de Felipe inclui crack, violência doméstica, álcool e extrema pobreza. Vai responsabilizar a quem nessa família? Passa longe da punição. Passa pelos programas e pelo atendimento, que no caso falharam.

“A reportagem nos mostra que os governos têm políticas ineficazes para essas situações. A família é outro fator, talvez o principal, para que isto aconteça. O próprio menino diz que, se tivesse levado umas palmadas e a companhia do pai, isto talvez fosse diferente.”

Clenio G. Dias

II - Responsabilidade

O psicólogo Lucas Neiva-Silva observou que, se o filho dele for para a rua, ele irá atrás, porque se sente responsável. Na opinião do pesquisador, falta essa mesma postura da rede de atendimento.

– Essa é uma das grandes lacunas. Se a criança foge do abrigo, falta alguém dizer: “Eu sou responsável e você não vai ficar na rua”. Temos de alcançar esse nível de intervenção.

“Sou a favor da maternidade responsável. Para que as crianças possam ser crianças. E para que não prefiram a rua à própria casa, independentemente do tipo de casa que tenham. Ser mulher não significa ter de ser mãe. Ser pobre não é o mesmo que ser ignorante. E ter responsabilidade não depende de situação financeira favorável. 14 anos. É a idade que esse menino tem hoje. Anos demais de fome, de abandono, de algumas drogas e possíveis infrações penais. Anos de menos para assumir uma vida que ninguém deveria ter.”

Amanda Melo

III - Governo

A rede de serviços públicos falhou com Felipe. Em momentos decisivos, houve burocratização e falta de diálogo entre diferentes instâncias da rede de apoio, deixando o menino sem o auxílio necessário. Júlia Obst, da Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc), reconheceu as falhas.

– A burocracia não é para existir. Estamos descentralizados em 13 equipes territorializadas, desde 2007, para melhorar o atendimento. As equipes estão trabalhando desde a primeira saída da criança à rua, fazendo mapeamentos e estudando os territórios. É muito difícil ter um menino que não seja conhecido pelos profissionais – afirmou.

Houve um reconhecimento, durante o debate, de que a estrutura de atendimento precisa melhorar. Uma das ideias levantadas é estabelecer maior articulação entre diferentes serviços. Também se ressaltou a necessidade da oferta de educação infantil, de serviços de saúde da família e de equipamentos que ofereçam alternativas de lazer nas comunidades.

O menino de rua (cujos passos Zero Hora acompanhou por três anos) não é filho de todos nós, mas sim de um governo omisso que rouba sem cessar, descaradamente, quando pagamos fortunas de impostos, numa luta tenaz pela sobrevivência e educação dos nossos filhos legítimos. A passividade deste desgoverno, desta impunidade vergonhosa, sim, é filha nossa, parindo os que receberam nosso voto e jogam na rua a nossa dignidade.

Inês Mascia Carneiro Monteiro

IV - Filhos

A reportagem Filho da Rua mostra que a mãe de Felipe nunca usou contraceptivos por achar que “Deus sabe o que faz”. Ela teve seis filhos. Participantes do Painel RBS entendem que não é possível deixar a questão do número de filhos na esfera divina. É preciso colocá-la na alçada das políticas públicas.

O juiz José Antônio Daltoé Cezar, da 2ª Vara do Juizado da Infância e da Juventude de Porto Alegre, considera muito importante implantar uma política de planejamento familiar:

– Vemos no dia a dia que falta isso. As mães chegam aos 23 ou 24 anos já com quatro ou cinco filhos. Na semana passada, devo ter recebido dos hospitais umas 10 mães usuárias de crack. Essas mães não têm acesso a uma política pública de contracepção. A sociedade ainda tem muito preconceito em trabalhar a contracepção. Poderíamos trazer a questão para o plano da realidade, botar o pé no chão é ver como as pessoas efetivamente vivem.

Um dos fatores que mais me comovem, em casos como o dele e da sua família, é que famílias incapacitadas de dar um bom subsídio e educação a essas crianças têm uma quantidade grande de filhos. Vejo o mesmo na minha escola, é frequente uma mãe ter seis ou sete filhos sem mínimas condições financeiras e psicológicas para isso... É triste, é estarrecedor, nos inquieta, mas trouxeram à tona um retrato muito fiel dessa mazela social. E o pior de tudo, nos sentimos responsáveis por financiar esses meninos de rua.

Letícia Germano

V - Drogas

– Estou no Juizado desde 1999. O que mudou de lá para cá? O crack. Quando cheguei, não havia criança usando crack. Muito da desagregação das famílias é fruto do crack – observou José Antônio Daltoé Cezar, juiz da 2ª Vara do Juizado da Infância e da Juventude de Porto Alegre.

A ineficácia do sistema para recuperar quem usa a droga foi reconhecida pelos participantes. Houve concordância de que oferecer um máximo 21 dias de internação, como ocorre hoje, é inútil.

Também foi ressaltada a precariedade da rede de comunidades terapêuticas que poderiam oferecer um tratamento prolongado, pós-desintoxicação.

– Temos 273 comunidades terapêuticas, mas poucas estão regularizadas. Nossa preocupação é que se estruturem, que contratem educadores, psicólogos, equipes de saúde, para trabalhar com eficiência – disse Fabiano Pereira, secretário estadual de Justiça e Direitos Humanos.

“O teor da reportagem é um alerta para os governantes, e mostra a situação real em que se encontram muitos jovens que vivem nas ruas, à mercê das drogas e do abandono.”

José Alberto Ely Pasquali

VI - Felipe

Os participantes do debate comentaram o caso específico de Felipe, o menino cuja trajetória foi esmiuçada no caderno especial Filho da Rua. O sociólogo Ivaldo Gehlen notou que, apesar de tudo, o menino demonstra estar permanentemente preocupado com o futuro – o que abre muitas potencialidades:

– Esses meninos têm projetos e sonhos que precisam ser acalentados.

Marcelo Dornelles, subprocurador geral de Justiça para Assuntos Institucionais do Ministério Público, também comentou a trajetória de Felipe e sugeriu que conhecer seus detalhes é um passo para encontrar saídas:

– Felipe idolatrava o pai e queria reencontrá-lo, pensando que seria uma solução. Ele encontra o pai e se frustra. O somatório de frustrações dessa criança é que faltou atender.

Júlia Obst, da Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc), órgão da prefeitura de Porto Alegre, notou que o caso do menino acompanhado por ZH ilumina um universo maior:

– Felipe não é o único. Existem outros em situação grave.

“Parabenizo por Filho da Rua, que mostra a trajetória de Felipe, uma história carregada de emoção e de situação de vulnerabilidade social. Assim, as pessoas podem ter consciência de que a sociedade sustenta a esmola de muitas crianças pelas ruas, e, se cada um fizer a sua parte, não teremos mais crianças nessas situações de precariedade.”

Felipe Spuldaro

VII - Rua

Por que as crianças vão para a rua? O sociólogo Ivaldo Gehlen observa, que apesar de ter havido nos últimos anos uma redução do número total de meninos de rua, aumentou a quantidade de crianças pequenas vivendo pelas esquinas. Esse universo abrange o universo pré-escolar, para o qual a oferta de ensino é precária.

– O que me parece é que os mais pequenos estão desamparados – diz o sociólogo.

O juiz José Antônio Daltoé Cezar observa que o perfil do menino de rua envolve desagregação familiar, com frequência relacionada ao consumo de crack.

– Nesse perfil, o pai e a mãe são ausentes. Não exercem autoridade. Não há pertencimento da criança. Ela vai à rua para pertencer a um grupo.

Segundo Júlia Obst, da Fasc, é preciso reconhecer ainda que, para algumas crianças, a rua é muito mais atrativa do que o lar.

“Parabéns, Zero Hora, por Filho da Rua. Presumo que essa voz, de uma forma ou de outra, produzirá seus frutos. Falando por mim, após a leitura da reportagem, passarei a enxergar os “Felipes” que vagam pelas ruas com olhar diferente daquele com que os enxergava outrora.”

Virgílio Melhado Passoni

VIII - Sociedade

Cada cidadão pode colaborar para combater o drama dos meninos de rua – e não se faz isso dando esmola. O consenso é de que a esmola atrapalha, na medida em que torna a rua atraente para a criança.

– Durante muito tempo, a esmola teve um papel preponderante na questão dos meninos de rua. Mas, nos últimos anos, o poder público está assumindo a responsabilidade. Em lugar de beneficiar, a esmola passou a atrapalhar. Ela é uma postura degradante, porque significa não só alimentar a situação, mas também manter uma postura de distanciamento – afirmou o sociólogo Ivaldo Gehlen, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Segundo Ivaldo, a sociedade pode ajudar de outras formas. Ele propõe que cada pessoa ofereça o auxílio que sua própria atividade permitir. Como sociólogo, exemplificou, ele colabora realizando pesquisas sobre o tema. O psicólogo Lucas Neiva-Silva sugeriu que cada pessoa passe a andar com um preservativo, para dá-lo de presente a quem está na sinaleira. Seria uma forma de oferecer saúde e proteção, em lugar de dar esmola. Fabiano Pereira, secretário estadual de Justiça e Direitos Humanos, lembrou que é possível destinar uma parcela do Imposto de Renda a fundos que financiam programas de atendimento à infância.

– A esmola é o pedágio da consciência, mas não resolve. Os fundos são um mecanismo melhor, que financiam entidades que fazem um atendimento extraordinário – opinou Pereira.

“Felipe não é um inocente, mas também entendo que Felipe é vítima de todos nós, que fazemos parte desta sociedade e deste sistema e que, de alguma forma ou de outra, contribuímos para a tragédia de vida do Felipe até hoje. Aos 14 anos sem saber ler, viciado em crack, sem ter limites na vida, sem esperança e com medo de seu futuro, penso eu que, cada um de nós (parte da sociedade gaúcha e brasileira) deve, ao invés de apenas lamentar, assumir que também é culpado e que pode sim, fazer algo para mudar este quadro (não só do Felipe mas de tantas e tantas outras crianças e adolescentes que nos rodeiam).”

Leandro Almeida

Ecos de uma história triste

Nestes três anos e três meses em que acompanho os passos de Felipe, ouvi todo tipo de comentários a respeito do meu projeto de reportagem. Lembro de alguns colegas terem me olhado com estranhamento, questionando o que uma apuração como essa teria a revelar. Houve quem dissesse que era um assunto desgastado, que todo mundo estava cansado de ver meninos na esquina. Outros argumentavam que o tema era relevante, mas seria incapaz de despertar a atenção dos leitores porque se tratava de uma narrativa triste, dolorida, cinzenta.

Naquele tempo, eu não tinha mais do que a minha convicção de que esta história merecia ser contada para justificar a minha persistência, com respaldo da direção de Redação. A partir da publicação do caderno de 16 páginas em que se transformou essa reportagem, com centenas de e-mails recebidos e comentários de leitores postados nas redes sociais sobre este trabalho, as respostas que faltavam ecoam de diferentes vozes.

Desde o final de semana, acumulo relatos de leitores indignados com a incapacidade da mãe de controlar o filho, com as falhas no serviço público, com a falta de dignidade da família que divide espaço com ratos de 30cm na Vila do Esqueleto. Confissões de pessoas que não conseguiram dormir, que choraram enquanto viam, pelas páginas do jornal, como Felipe perdeu a sua infância para as ruas. Mensagens com reflexões de gente que prometeu a si mesma nunca mais dar esmolas depois de perceber os efeitos nocivos dessa suposta caridade na vida de Felipe. Discursos de agentes públicos prometendo qualificar o atendimento à infância e aos dependentes de crack.

Acima de tudo, são relatos que mostram que os leitores ainda se importam com o destino de um menino que é o retrato acabado de um fracasso coletivo. E isso é alentador. Enquanto houver indignação, é possível acreditar na transformação desta realidade. Porque esta não é apenas uma história – há centenas de Felipes vagando sem destino. Como mostra a trajetória deste menino-símbolo acompanhado por ZH, não há apenas um culpado. Somos todos cúmplices.
LETÍCIA DUARTE | REPÓRTER