sexta-feira, 18 de abril de 2014

O SAL DA TERRA


ZERO HORA 18 de abril de 2014 | N° 17767


DAVID COIMBRA



“Vós sois o sal da terra”, disse Jesus no Sermão da Montanha. “Vós sois a luz do mundo”, enfatizou, e era para os seres humanos que falava. Para nós.

Nós somos o sal da terra.

Mas não vou em frente antes de falar do meu medo. Tenho medo de religiões e ideologias, porque umas e outras são matéria de fé. São dogma. No momento em que você se torna dogmático, você tem um lado e do seu lado está o Bem, enquanto o Mal está do lado de lá. Pessoas mataram e morreram, matam e morrem por causa de religiões e ideologias. Além do mais, aquelas certezas tantas e tão sólidas fazem com que as pessoas deixem de pensar. Não precisa, já está tudo pensado, basta seguir o prescrito e dividir o mundo em dois hemisférios, sem ponderações: aqui estão os certos, lá estão os errados.

Dito isso, que fique claro: não estou falando do Jesus religioso, nesta Sexta-Feira Santa; não estou falando do Jesus cristão. Estou falando de um dos mais revolucionários filósofos morais da História, e da peça central do seu pensamento, que foi aquele Sermão.

A filosofia de Jesus é tão inovadora que nenhuma de suas igrejas compreendeu ou aplicou o seu principal ensinamento. Ninguém entendeu essa passagem:

“Não oponhais resistência ao mau; se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. E se alguém quiser pleitear contigo para te tirar a túnica dá-lhe também a capa. (...) Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”.

Olhando assim, você pode achar humilhante tamanha resignação. Mas Jesus não está sugerindo submissão. Ele se põe acima disso. Está dizendo, simplesmente, que não vale a pena. Ou, como já disseram os Beatles, a vida é muito curta para perder tempo com brigas e confusões. Life is very short.

O Sermão da Montanha é surpreendente. O trecho do qual Erico Verissimo colheu o título de um de seus livros “olhai os lírios do campo”, é de rara sabedoria e de construção preciosa. Jesus dizia que o homem não deve se preocupar com acumulação de riquezas. Não deve se preocupar nem com seu sustento: “A cada dia basta o seu cuidado”. Que frase! O que ele queria dizer com isso? O mesmo que falou a respeito de brigas e confusões: que se preocupar não vale a pena. Ou, usando outro clássico dos Beatles, deixe estar. Let it be.

Mas não, não vou fazer uma exegese do Sermão da Montanha a partir dos Beatles. Não seria tão superficial. O Sermão da Montanha é profundo. Algumas nesgas dele você pode levar como regra. Como quando Jesus diz que cada um julga os outros com sua própria medida. Com essa sentença, ele diz o mais importante sobre a alma humana. Diz que o Mal é o que sai da boca do homem. E é.

Não são palavras santas. São palavras sábias. Mas, de todas elas, as que mais me intrigam foram as que citei lá em cima, na abertura do texto. Como o homem pode ser a luz do mundo, se há tanta crueldade, se pais que matam filhos, como se suspeita acerca daquele pai de Três Passos?

Vinha pensando nisso, vinha intrigado com isso toda a semana, até que, na quinta-feira, minha mulher me contou um caso prosaico. Ela é arquiteta. Naquele dia, havia ligado para o eletricista com quem trabalha, um homem muito sério, muito compenetrado. Assim que atendeu, ele se desculpou: não poderia falar, porque seu filho tinha caído na escola, machucara a boca e precisava ser levado ao hospital. E então, antes que ela conseguisse perguntar como estava o menino, aquele homem sisudo começou a chorar.

Ela me relatou essa história por telefone. Eu estava na redação. Desliguei com o coração apertado, pensando naquele pai, no quanto ele deve amar seu filho e em como devia estar sofrendo com o sofrimento do menino. E, ainda na redação, fechei os olhos e roguei em silêncio para que o pequeno estivesse bem, para que em breve os dois estejam de novo sorrindo, e pensei que é por causa de pais como esse, por causa de amores como esse que, sim, vós sois a luz do mundo. Vós sois o sal da terra.





TENTATIVA DE ASFIXIA

ZERO HORA 17/04/2014 | 23h06

MP e Conselho Tutelar foram informados que Bernardo teria sofrido "tentativa de asfixia" por madrasta. Troca de e-mails obtida por Zero Hora revela que Ministério Público foi comunicado do fato em novembro de 2013



Bernardo Uglione Boldrini, 11 anos, desapareceu no dia 4 de abril, uma sexta-feira, em Três Passos, município do Noroeste, e foi encontrado morto em 14 de abrilFoto: Carlos Macedo / Agencia RBS

Mauricio Tonetto*




O advogado Marlon Balbon Taborda, que representa a avó materna do menino Bernardo Uglione Boldrini, 11 anos, morto no dia 4 de abril, alertou ao Conselho Tutelar de Santa Maria, no dia 22 de novembro de 2013, e ao Ministério Público de Três Passos, em 6 de dezembro do mesmo ano, sobre o risco de vida que corria o menino. Em troca de e-mails obtida por Zero Hora, Taborda informa, baseado em denúncia feita por uma babá que tinha relação íntima com Bernardo, que o garoto "estava andando pela rua, abandonado, que foi tentado ser asfixiado em uma noite quando estava em casa, fato confirmado pelo menino". Conforme o Ministério Público, a denúncia é de 2012.


Em outro trecho do documento, o advogado da família alertou: "A (babá) me expôs de forma categórica no telefone que quem fez isso foi a atual esposa do pai do menino. Disse também que a 'polícia bateu lá', e que o pai do Bernardo estaria internado por motivos alheios. Em suma, a preocupação da avó é que o seu neto esteja sem referencial de família, pois estaria abandonado pelo pai e com estranhos".


Confira trechos dos e-mails:



Antes de procurar o Ministério Público, Taborda enviou a mesma denúncia ao Conselho Tutelar de Santa Maria. No documento encaminhado aos conselheiros, o advogado explica que, diante das ameaças, o menino estaria com uma outra família, que o acolheu diversas vezes.

O texto diz o seguinte: "(A família) confirmou que o menino realmente está com ela, e que não tem e nem quer ter notícia do pai do menino BERNARDO, de nome LEANDRO BOLDRINI. Que o menino está sem pai e sem mãe. Deu a entender que algo grave aconteceu, mas não disse e a avó não sabe o que... Assim sendo, o que se precisa é averiguar a situação".

Procurado por Zero Hora, o conselheiro tutelar Alexandre Almeida da Silva disse que orientou o advogado a procurar o conselho na cidade onde o menino morava com o pai:

– Na época eu falei com o advogado a respeito dessa denúncia, e a avó também nos procurou. Eles falavam sobre uma possível situação de risco desse menino. Eu orientei o advogado da família a mandar fazer a denúncia no local de domicílio da criança, como é a regra geral. Dei a ele o telefone do Conselho Tutelar de Três Passos.



Os e-mails obtidos por Zero Hora são entre novembro de 2013 e dezembro do mesmo ano. A última mensagem encaminhada pelo Ministério Público de Três Passos convida o advogado e a avó de Bernardo a irem até a cidade para esclarecer as denúncias. Taborda alegou que ela era doente e não podia se deslocar, tendo que falar ao MP em Santa Maria, cidade onde reside.

Procurada por Zero Hora, a promotora Dinamárcia Maciel de Oliveira confirmou a troca de e-mails. Ela explicou que a avó do menino prestou depoimento em Santa Maria e que, em seguida, o MP pediu à Justiça que a guarda de Bernardo fosse transferida para a avó devido à falta de atenção com o garoto.

– Eu entrei com pedido de guarda para a cliente dele (do advogado) ficar com o Bernardo no dia 31 de janeiro de 2014. Depois, o juiz optou por marcar as audiências com o pai e o menino. Eu pedi a audiência com a avó junto. Fiz tudo que estava a meu alcance.



Juiz tentou aproximação da família

Em janeiro, Bernardo foi levado ao MP por um agente da rede de proteção. Negou sofrer maus-tratos físicos e violência, mas disse que o pai era indiferente e que a madrasta implicava com ele. No final de janeiro, a promotora ingressou com ação na Justiça pedindo que a guarda provisória fosse dada para a avó materna, em Santa Maria.

O juiz entendeu por marcar uma audiência com o pai de Bernardo, que ocorreu no começo de fevereiro. Durante a conversa, o pai admitiu falhas, disse que trabalhava demais e pediu uma chance de reaproximação com o filho. Bernardo também aceitou: "vamos tentar", disse na ocasião o menino.

Conforme a promotora, foi estipulado um prazo para uma nova avaliação da situação. Desde então, nenhuma informação sobre problemas na relação chegou ao MP. Dinamárcia destacou que em toda a apuração não surgiu qualquer indício de que o menino corresse perigo ou estivesse sofrendo violência.

O caso que chocou o Rio Grande do Sul

Bernardo Uglione Boldrini, 11 anos, desapareceu no dia 4 de abril, uma sexta-feira, em Três Passos, município do Noroeste. De acordo com o pai, o médico cirurgião Leandro Boldrini, 38 anos, ele teria ido à tarde para a cidade de Frederico Westphalen com a madrasta, Graciele Ugolini, 32 anos, para comprar uma TV.

De volta a Três Passos, o menino teria dito que passaria o final de semana na casa de um amigo. Como no domingo ele não retornou, o pai acionou a polícia. Boldrini chegou a contatar uma rádio local para anunciar o desaparecimento. Cartazes com fotos de Bernardo foram espalhados pela cidade, por Santa Maria e Passo Fundo.

Na noite de segunda-feira, dia 14, o corpo do menino foi encontrado no interior de Frederico Westphalen dentro de um saco plástico e enterrado às margens do Rio Mico, na localidade de Linha São Francisco, interior do município.

Segundo a Polícia Civil, Bernardo foi dopado antes de ser morto com uma injeção letal no dia 4. Seu corpo foi velado em Santa Maria e sepultado na mesma cidade. No dia 14, foram presos o médico Leandro Boldrini _ que tem uma clínica particular em Três Passos e atua no hospital do município _, a madrasta e uma terceira pessoa, identificada como Edelvania Wirganovicz, 40 anos, que colaborou com a identificação do corpo. O casal aparentava uma vida dupla, segundo relatos de amigos e vizinhos.

* Colaborou Rossana Silva

quinta-feira, 17 de abril de 2014

PROTEÇÃO ÀS CRIANÇAS



ZERO HORA 17 de abril de 2014 | N° 17766


EDITORIAIS





O covarde assassinato do menino Bernardo Uglione Boldrini provoca, neste primeiro momento, reações inevitáveis de revolta e comoção, ao mesmo tempo em que reacende a discussão sobre a necessidade de se fortalecer e qualificar a estratégia preventiva contra abusos e maus-tratos infantis. Mesmo sob esse estado de choque, e ao mesmo tempo em que ainda tentam entender as razões da brutalidade, a sociedade e as instituições com atua-ção nessa área precisam reavaliar suas estruturas de proteção à infância. E, ao mesmo tempo, refletir sobre o que pode ser feito para melhorar o atendimento a pessoas nessa fase da vida. Isso significa reavaliar não apenas toda a estrutura de amparo assegurada por lei, mas também questões de ordem cultural. Entre elas, está a de que a sociedade pode, sim, agir de forma mais consequente e mais objetiva quando depara com qualquer tipo de desrespeito a direitos assegurados a meninas e meninos.

A Constituição de 1988 e, dois anos depois, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) abriram caminho para avanços importantes na atenção a pessoas ainda em fase de desenvolvimento físico e psicológico. Desde então, os espaços de atendimento se multiplicaram nos Conselhos Tutelares, no Ministério Público, nas delegacias especializadas de Polícia, nas Varas da Infância e da Juventude e numa infinidade de organismos que, no setor público ou por iniciativa da sociedade civil, se empenham em evitar o pior. Assim como na luta contra a criminalidade, porém, essas instituições nem sempre dispõem da estrutura adequada para fazer o que devem com o máximo de eficiência. Em consequência, os danos envolvendo crianças, na maioria das vezes no próprio ambiente familiar, são em número muito superior ao que sugerem os casos mais rumorosos.

As falhas na assistência preventiva à infância ocorrem por razões estruturais, mas também por questões culturais, e em ambos os casos é preciso enfrentá-las logo. Redes de atendimento devem contar com estrutura adequada de funcionamento, o que implica planejamento e recursos orçamentários adequados. Ainda assim, só podem executar plenamente suas funções se cada brasileiro conseguir deixar de lado convicções ultrapassadas como a de que em questões envolvendo outras famílias ninguém se mete. Crianças e adolescentes têm hoje direitos claramente assegurados, a começar pelo de plena atenção dos pais ou responsáveis. Quando esses princípios não são observados, é, sim, dever de todos, de vizinhos a professores, denunciar os abusos.

No universo infantil, tudo será sempre complexo, a começar pela dificuldade que significa para os adultos ouvir uma criança e entender o que ela quer dizer. A própria lei é limitadora, ao privilegiar a reinserção no meio familiar, que nem sempre se constitui no mundo sonhado por meninas e meninos. Tragédias como a do garoto Bernardo, porém, mostram que é preciso uma ação ampla e imediata para reforçar de vez uma vasta rede de proteção coletiva a toda criança em situação de risco.

FALHAS NO SISTEMA DE PROTEÇÃO À INFÂNCIA

ZERO HORA 17/04/2014 | 05h01

Especialistas apontam falhas no sistema de proteção à infância no caso Bernardo




Menino foi encontrado morto em Frederico WestphalenFoto: Carlos Macedo / Agencia RBS


José Luís Costa



O descompasso provocado por uma legislação inadequada e por falhas na rede que deveria proteger o menino Bernardo Uglione Boldrini é apontado como um dos fatores que levaram à tragédia em Três Passos.

O garoto de 11 anos, vítima de uma tragédia familiar, emitiu sinais de que precisava de ajuda, mas faltou compreensão suficiente. Esse é o diagnóstico da maioria dos especialistas no tema consultados por ZH.

Consultor do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), o advogado João Batista Costa Saraiva afirma que o principal problema está na estrutura de atendimento:

— O sistema não está suficientemente aparelhado. Para um caso desses, não são suficientes os ouvidos do juiz e do promotor. Precisa, também, de um assistente social, um psicólogo. O Conselho Tutelar tem de melhorar, assim como os centro de atendimento. Não houve capacidade de diagnosticar a extensão do problema.

Verônica Petersen Chaves, psicóloga do Tribunal de Justiça (TJ), afirma que, para casos como o de Bernardo, juízes deveriam contar com apoio de profissionais de psicologia, valendo-se de pareceres técnicos para auxiliar na tomada de decisões.

— Infelizmente, somos poucos profissionais disponíveis para atender a todas as comarcas — avalia Verônica, que atua no núcleo da infância do Centro de Atendimento Psicossocial Multidisciplinar no Fórum Central.

Confira na linha do tempo a cronologia do caso Bernardo na Justiça:

Desembargador defende decisão

Para Márcia Herbertz, ex-conselheira tutelar e ex-integrante do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente (Cedica), a rede de proteção está preparada para entrar em casas empobrecidas, mas tem dificuldades de cruzar os muros das classes mais altas.

— As atitudes do menino, que dormia na casa dos amigos sem horário para voltar para casa, a falta de amor e de carinho e o suicídio da mãe são sinais evidentes de violência psicológica. Não perceberam que o menino estava pedindo socorro — interpreta Márcia.

A advogada Maria Dinair Acosta Gonçalves, presidente da Comissão Especial da Criança e do Adolescente da OAB no Rio Grande do Sul, aponta falhas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA):

— A lei é falha ao não prever a presença de um advogado nestes casos, e nenhum defensor foi chamado. O advogado acompanharia a criança e, ao primeiro sinal de maus-tratos, encaminharia a um abrigo.

O desembargador José Antônio Daltoé Cezar entende que o juiz local agiu de acordo com a lei.

— Sou um crítico do ECA porque supervaloriza vínculos biológicos, engessando o juiz e o promotor. Exige que se busque ao máximo soluções para manter a criança em família — afirma Cezar, que atuou por mais de duas décadas em varas da infância e juventude.

O desembargador Túlio Martins, presidente do conselho de comunicação social do TJ, é enfático:

— O juiz de Três Passos não cometeu erro. A decisão foi técnica, não havia possibilidade de prever o que ocorreu. Eu teria decidido da mesma maneira.

O QUE ESTÁ EM DEBATE

A REDE — O sistema de atendimento é uma união de serviços de saúde, como os centros de referência em assistência social e psicossocial, com Judiciário, Ministério Público, escolas e Conselhos Tutelares. Os centros de referências são mantidos por prefeituras com ajuda de recursos federais. Esses organismos fazem encaminhamentos e trocam informações entre si. Em geral, costumam se reunir periodicamente para discutir medidas de melhoria dos serviços.

AS FALHAS — Segundo especialistas ouvidos por Zero Hora ontem, a escola, a comunidade e os amigos deveriam ter se imposto para ajudar Bernardo ao perceberem que ele sofria com a rejeição familiar. Quando o menino procurou ajuda, o Ministério Público e o Judiciário deveriam ter convocado a rede de atendimento psicossocial da cidade para acompanhá-lo, o pai e a madrasta para avaliar sintomas de maus-tratos afetivos.


O caso que chocou o Rio Grande do Sul

Bernardo Uglione Boldrini, 11 anos, desapareceu no dia 4 de abril, uma sexta-feira, em Três Passos, município do Noroeste. De acordo com o pai, o médico cirurgião Leandro Boldrini, 38 anos, ele teria ido à tarde para a cidade de Frederico Westphalen com a madrasta, Graciele Ugolini, 32 anos, para comprar uma TV.

De volta a Três Passos, o menino teria dito que passaria o final de semana na casa de um amigo. Como no domingo ele não retornou, o pai acionou a polícia. Boldrini chegou a contatar uma rádio local para anunciar o desaparecimento. Cartazes com fotos de Bernardo foram espalhados pela cidade, por Santa Maria e Passo Fundo.

Na noite de segunda-feira, dia 14, o corpo do menino foi encontrado no interior de Frederico Westphalen dentro de um saco plástico e enterrado às margens do Rio Mico, na localidade de Linha São Francisco, interior do município.

Segundo a Polícia Civil, Bernardo foi dopado antes de ser morto com uma injeção letal no dia 4. Seu corpo foi velado em Santa Maria e sepultado na mesma cidade. No dia 14, foram presos o médico Leandro Boldrini – que tem uma clínica particular em Três Passos e atua no hospital do município –, a madrasta e uma terceira pessoa, identificada como Edelvania Wirganovicz, 40 anos, que colaborou com a identificação do corpo. O casal aparentava ter uma vida dupla, segundo relatos de amigos e vizinhos.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

ESSE MENINO...

ZERO HORA 15/04/2014 | 21h06

Em conversa na Rádio Farroupilha, pai de Bernardo chama filho quatro vezes de "esse menino". Leandro Boldrini foi preso por suspeitas de matar o filho



O pai, Leandro Boldrini, e a madrasta, Graciele Ugoline, foram presos por suspeitas de matar o garoto BernardoFoto: Divulgação / Arquivo Pessoal


No último domingo, dia 13, Leandro Boldrini, suspeito de assassinar o filhoBernardo Uglione Boldrini de 11 anos, ligou para a Rádio Farroupilha para avisar que o garoto estava desaparecido há uma semana. No áudio, Leandro não se refere a Bernardo como "filho" nenhuma vez, o chamando de "esse menino" quatro vezes na gravação de pouco mais de três minutos. No final da ligação, ele se identifica como pai do garoto.

No áudio, Leandro conta que Bernardo saiu de casa na sexta-feira, dia 4 de abril, para ir a casa de um amigo e não chegou no local. Ele só teria percebido o desaparecimento do garoto no domingo, quando fez a ocorrência.

Leandro Boldrini, 38 anos, a companheira Graciele Ugolini, 32 anos, e Edelvânia Wirganovicz, 40 anos, foram presos nesta terça-feira por suspeitas de matar o garoto.

Confira o áudio completo:

http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/policia/noticia/2014/04/em-conversa-na-radio-farroupilha-pai-de-bernardo-chama-filho-quatro-vezes-de-esse-menino-4475959.html

DESAMOR E INDIFERENÇA


ZERO HORA 16 de abril de 2014 | N° 17765

ADRIANA IRION


REPORTAGEM ESPECIAL


Em janeiro, Bernardo relatou ao MP problemas em casa e chegou a pedir para morar com colegas



Dificuldades de relacionamento da família com Bernardo Uglione Boldrini haviam chegado ao conhecimento do Ministério Público (MP), pela primeira vez, em novembro passado e motivaram uma ação na Justiça em favor do menino. Em janeiro, Bernardo relatou ao MP detalhes da rotina em casa, queixou-se de indiferença e de desamor e apontou famílias de colegas com as quais poderia morar

Essas famílias foram abordadas pelo MP, mas se negaram a abrigar o menino temporariamente. O caso estava sob os cuidados da promotora da Infância e da Juventude Dinamárcia Maciel de Oliveira. Em janeiro, depois de ouvir Bernardo e pedir informações sobre ele e a família a órgãos da rede de proteção, ela ingressou com medida protetiva na Justiça. Um dos pedidos era de que a guarda provisória de Bernardo fosse concedida à avó materna, que vive em Santa Maria.

O juiz marcou audiência com a presença do pai e de Bernardo. Diante do juiz e da promotora, em fevereiro, Leandro Boldrini demonstrou calma, admitiu a ausência e pediu uma chance de reconstruir a relação.

– Como o Estatuto da Criança e do Adolescente diz que a prioridade é fortalecer o vínculo da criança com a família biológica e não havia informação sobre maus-tratos físicos, concordamos com a tentativa – explica ela.

Bernardo também aceitou: “ Vamos tentar”, disse. Foi marcado um prazo de 60 dias para nova avaliação. Desde então, nenhuma informação sobre problemas na relação surgiram.

– Na audiência, disse a Bernardo que podia nos procurar sempre que precisasse. Ele passava na frente do MP para ir para a escola – diz Dinamárcia.

A suposta “negligência afetiva” em relação a Bernardo havia chegado ao conhecimento do MP por meio de um assistente social. A promotora pediu informações a órgãos como o Conselho Tutelar e a escola e apurou quem poderia assumir a guarda. Foi localizada a avó materna que informou que, apesar de problemas de saúde, poderia receber Bernardo. Ela contrataria uma pessoa para ajudá-la. Nesse período de atuação do MP, agentes da rede de proteção tentaram contatos com o pai, que não deu retorno.

– Como a família precisava ser apoiada para reconstruir a relação, ingressamos com a ação para garantir os direitos fundamentais do Bernardo. Não havia o que desabonasse a conduta do pai, nem indício de que o menino corresse perigo – diz a promotora.

Ao conversar com Dinamárcia, Bernardo negou sofrer agressões físicas. Demonstrando ser um menino amoroso e afetivo, reclamou de falta de atenção e de amor por parte do pai. Em relação à madrasta, falou de implicância e troca de farpas.

– Reputo essa tragédia ao imprevisível. Usamos todas as ferramentas legais ao nosso alcance. Não somos onipotentes – desabafa a promotora.


quarta-feira, 2 de abril de 2014

FUNCIONÁRIOS DA FASE SÃO SUSPEITOS DE ALICIAMENTO DE INFRATORES


ZERO HORA 02 de abril de 2014 | N° 17751

ADRIANA IRION

FOGO AMIGO. Justiça afasta dois servidores da Fase

Funcionários são suspeitos de aliciar adolescentes infratores e insuflar motins



A investigação de uma rebelião ocorrida em maio em uma unidade da Fundação de Atendimento Socioeducativo (Fase), em Porto Alegre, revelou bastidores de uma guerra por poder que envolveu até o suposto planejamento, por parte de um servidor, da morte de um colega. Um interno ganharia R$ 5 mil e uma arma para matar o funcionário. A apuração, conduzida pelo Ministério Público, mostrou ainda que dois servidores dariam drogas e bebidas alcoólicas para infratores e estimulariam atos de indisciplina e agressões entre internos. Eles foram afastados das funções pela Justiça.

Oobjetivo seria desestabilizar colegas de outras equipes para ganhar mais poder na unidade, o Centro Socioeducativo Poa I (Case POA I). Já a morte que teria sido, supostamente, encomendada teria o objetivo a ascensão na hierarquia interna da fundação. O suposto mentor do crime queria, de acordo com a investigação, ocupar o cargo do colega que morreria. A partir de minuciosos depoimentos de internos, o MP elencou nove fatos em desabono à conduta dos dois agentes socioeducadores e pediu o afastamento deles, além de condenação por improbidade administrativa.

Rogério da Silva Ibias já havia sido afastado pela presidência da fundação e Matheus Ostrek Webber saíra em licença-saúde. No final de janeiro, no entanto, a juíza Vera Deboni acatou pedido do MP a fim de reforçar a proibição de que os dois voltassem a ter contato com internos. Houve recurso, ainda não julgado. Segundo a Fase, os dois estão afastados do cargo desde a decisão da juíza.

Ao ingressar com ação de improbidade contra os dois, o promotor Júlio Alfredo de Almeida apontou a existência de disputa político-partidária na instituição: “A investigação traz a lume lamentáveis confrontos político partidários e disputa de poder dentro da unidade Case POA I, aliás fomentado por uma fração da direção da Fase, que não sua presidente, fato que foi objeto de registro pela respeitada equipe técnica daquela unidade onde expressamente é nominado o requerido Rogério Ibias como fomentador do confronto de grupos. (...) De fato não se poderia esperar deslinde menos funesto quando se mistura política partidária com socioeducação.”

Inquérito policial investiga suspeita de outros crimes

A apuração foi feita depois de um motim ocorrido em 20 de maio, quando internos atearam fogo e depredaram uma ala. Durante inspeções, os internos passaram a relatar supostos desvios de conduta dos dois servidores. Há relatos que reforçam suspeitas de entrega de drogas pelos servidores em troca de favores, como o domínio da unidade, a entrega de isqueiros, que são proibidos pelo risco de incêndios, agressões a internos e até um caso de assédio moral e sexual contra a companheira de um interno da unidade.

As suspeitas de planejamento da morte de um servidor, de ocorrência de tortura e do fornecimento de substâncias ilícitas aos internos estão sendo apurados em inquérito policial solicitado pelo MP.



CONTRAPONTOS

O que diz a Fase - Por meio da assessoria de imprensa, a presidente da fundação, Joelza Mesquita, informou que não falaria das suspeitas apuradas pelo MP.

O que dizem os agentes - Procurado por Zero Hora, Luiz Alexandre Markusons, advogado de defesa, declarou que a denúncia do Ministério Público seria baseada apenas em depoimentos dos internos da Fase e que seus clientes não irão conceder entrevista sobre o assunto.

Matheus Ostrek Webber classificou as denúncias do Ministério Público como “caluniosas” e não quis dar declarações antes de consultar seus advogados.

O outro suspeito, Rogério da Silva Ibias, não respondeu às ligações da reportagem.